
Lançamentos recentes mostram que o mercado plant-based está avançando para produtos com mais proteína, praticidade e apelo funcional.
O mercado vegano e de alimentos plant-based no Brasil começa a mostrar uma mudança importante de posicionamento: as bebidas vegetais já não disputam apenas espaço como alternativas ao leite, mas passam a incorporar atributos associados a nutrição esportiva, saciedade e praticidade. Um dos movimentos mais recentes foi o lançamento, pela Almond Breeze, de uma bebida proteica vegetal com 15 gramas de proteína por porção, nos sabores caramelo salgado e manga com maracujá. A novidade foi anunciada em agosto e amplia a presença da marca em uma categoria que busca alcançar consumidores além do público vegano. (Piracanjuba)
O movimento interessa ao mercado vegano porque mostra uma tentativa das empresas de aproximar alimentos vegetais de necessidades que ganharam espaço no consumo convencional, especialmente a busca por proteína. Ao mesmo tempo, pesquisas recentes indicam que bebidas vegetais apresentam diferenças importantes em composição nutricional e não devem ser tratadas como produtos equivalentes entre si. A dúvida que surge para o consumidor é justamente esta: o crescimento das bebidas proteicas vegetais representa uma nova fase do mercado plant-based e o que é preciso observar antes de comprar?
Por que as bebidas proteicas vegetais estão ganhando espaço no mercado brasileiro?
A entrada de produtos vegetais em categorias tradicionalmente associadas à proteína animal revela uma mudança no público-alvo das empresas. Em vez de falar exclusivamente com veganos ou pessoas que não consomem lactose, os fabricantes passaram a mirar consumidores interessados em praticidade, alimentação funcional, exercícios físicos e aumento da ingestão proteica. O lançamento da Almond Breeze segue exatamente essa direção: a empresa descreve a bebida como uma combinação de proteína, praticidade e sabor, com 15 gramas de proteína por embalagem. (Piracanjuba)
Esse movimento também ocorre em um momento no qual proteínas vegetais recebem atenção crescente da pesquisa científica. Uma revisão publicada em 2026 na revista Food & Function avaliou evidências sobre proteínas vegetais e saúde humana e destacou possíveis relações com saciedade, metabolismo lipídico, microbiota intestinal e saúde cardiometabólica, embora ressalte que os efeitos dependem da fonte proteica e da matriz alimentar. Isso significa que não é suficiente olhar apenas para a quantidade de proteína estampada na embalagem: a composição completa do alimento continua sendo determinante. (Royal Society of Chemistry Publications)
Outro fator relevante é a evolução tecnológica dos produtos. Pesquisas recentes apontam que proteínas de ervilha, soja, aveia, sementes e oleaginosas podem ser utilizadas em bebidas funcionais, mas características como solubilidade, textura, digestibilidade e estabilidade ainda representam desafios para a indústria. Uma revisão publicada em 2026 destaca justamente que novas tecnologias de processamento são importantes para melhorar o desempenho das proteínas vegetais em bebidas e ampliar sua aceitação pelo consumidor. (DOI)
No Brasil, preço continua sendo uma questão decisiva para a expansão dessa categoria. Pesquisa realizada pela Embrapa e pela Universidade Federal de Viçosa comparou bebidas vegetais e leite no mercado brasileiro e apontou que, diante do perfil de renda da população, o preço aparece como um dos principais fatores para a decisão de compra. Isso ajuda a explicar por que o futuro do mercado vegano não depende apenas de criar produtos nutricionalmente interessantes, mas também de torná-los acessíveis para um público maior. (Embrapa)
Bebida vegetal com proteína é realmente uma opção saudável?
A resposta depende da formulação. Uma bebida vegetal pode contribuir para uma alimentação equilibrada, mas produtos diferentes podem apresentar quantidades muito distintas de proteínas, cálcio, vitamina B12, vitamina D, açúcares, gorduras e outros nutrientes. Uma revisão publicada em 2026 sobre alternativas vegetais aos laticínios destaca justamente essa variabilidade e aponta que muitas bebidas vegetais apresentam menos proteína e minerais que o leite convencional, tornando a fortificação especialmente importante em determinados produtos. (Springer Nature)
Por isso, o consumidor vegano ou interessado em reduzir o consumo de alimentos de origem animal deve observar a tabela nutricional e a lista de ingredientes, e não apenas a expressão “plant-based” na frente da embalagem. Para uma bebida proteica, a quantidade de proteína por porção é um dos primeiros itens a conferir, mas também vale observar a presença de cálcio, vitamina B12 e vitamina D quando esses nutrientes fizerem parte da proposta nutricional do produto. Açúcares adicionados e quantidade total de calorias também podem ser relevantes dependendo do objetivo alimentar de cada pessoa.
A ciência também mostra que proteína vegetal não deve ser avaliada isoladamente como inferior ou superior em todas as situações. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no Nutrition Reviews reuniu 43 ensaios clínicos randomizados para comparar proteínas vegetais e animais em indicadores relacionados à massa muscular, força e desempenho físico. Os resultados reforçam que a qualidade da proteína, a quantidade consumida, a fonte utilizada e o contexto da alimentação precisam ser considerados na avaliação. (OUP Academic)
No caso de bebidas vegetais, existe ainda uma diferença importante entre alimento básico e produto funcional. Uma bebida de amêndoas tradicional pode ter quantidade relativamente baixa de proteína, enquanto uma formulação especificamente desenvolvida para fornecer proteína pode utilizar concentrados ou isolados vegetais. A nova bebida da Almond Breeze, por exemplo, foi apresentada pela empresa justamente como uma ampliação do portfólio para o segmento de bebidas vegetais com maior teor proteico. (Piracanjuba)
Para quem segue uma alimentação vegana, a novidade pode representar conveniência, mas não significa que seja necessário consumir bebidas proteicas industrializadas para atingir as necessidades de proteína. Feijão, lentilha, grão-de-bico, soja, tofu, ervilha, amendoim, sementes e outras leguminosas continuam sendo importantes fontes alimentares. Produtos industrializados podem funcionar como complemento ou alternativa prática em determinadas rotinas, mas uma dieta vegetal equilibrada pode ser construída predominantemente com alimentos in natura ou minimamente processados.
O que a nova fase do mercado plant-based revela sobre o consumidor?
O principal sinal dos lançamentos recentes é que o mercado vegano está deixando de ser tratado apenas como um segmento de substituição e começando a disputar categorias mais amplas de consumo. Uma bebida vegetal proteica não precisa ser comprada somente por alguém que evita leite por razões éticas, ambientais ou alimentares. Ela também pode interessar a quem pratica atividade física, procura praticidade ou simplesmente deseja variar as fontes de proteína.
Essa ampliação do público pode ser estratégica para o crescimento dos alimentos plant-based no Brasil. Quanto mais produtos vegetais conseguem atender necessidades concretas de consumidores diferentes, maior tende a ser o espaço para investimentos em pesquisa, desenvolvimento, distribuição e redução de custos. Uma revisão científica publicada em 2026 sobre proteínas vegetais destaca justamente o potencial tecnológico desses ingredientes, mas também aponta desafios relacionados à aceitação do consumidor, segurança, regulamentação e características sensoriais. (DOI)
Existe ainda uma dimensão ambiental. A produção de proteínas vegetais pode apresentar vantagens ambientais em comparação com determinadas fontes animais, embora o impacto varie conforme ingrediente, processamento, origem, transporte e sistema produtivo. A literatura científica mais recente sobre bebidas funcionais à base de plantas aponta que essas alternativas podem contribuir para estratégias alimentares mais sustentáveis, mas também ressalta que a tecnologia e a formulação precisam evoluir para que os produtos conciliem nutrição, sabor, funcionalidade e menor impacto. (DOI)
O mercado também precisa enfrentar uma questão que pode determinar seu crescimento: preço. Se bebidas proteicas vegetais permanecerem restritas a consumidores dispostos a pagar valores elevados, a expansão da categoria poderá ficar limitada. A pesquisa da Embrapa e da UFV sobre bebidas proteicas no Brasil reforça que a acessibilidade econômica é um componente fundamental da decisão de compra no país. (Embrapa)
Para o consumidor, a tendência significa que haverá cada vez mais opções, mas também maior necessidade de comparação. Nem todo produto vegetal é automaticamente nutricionalmente completo, assim como nem todo produto com alto teor de proteína é necessariamente a melhor escolha para todas as pessoas. Ler rótulos, comparar preços, observar a composição e considerar o conjunto da alimentação são estratégias mais úteis do que escolher um produto apenas pelo marketing.
O avanço das bebidas proteicas vegetais também mostra que o mercado plant-based está buscando dialogar com hábitos que ultrapassam o veganismo. Isso pode ser positivo para a causa animal porque aumenta a disponibilidade de alternativas que não dependem de ingredientes de origem animal, mas o impacto real dependerá de preço, qualidade, escala e aceitação.
Nos próximos anos, a tendência deve ser de maior diversidade dentro do setor: bebidas, iogurtes, refeições prontas e suplementos vegetais poderão disputar espaço com produtos tradicionais não apenas pelo argumento ambiental ou ético, mas também por desempenho, conveniência e nutrição. Para o consumidor brasileiro, isso representa uma oportunidade de ampliar escolhas sem abandonar a atenção à qualidade dos alimentos.
A nova geração de produtos plant-based, portanto, não está apenas tentando imitar alimentos convencionais. Ela começa a desenvolver propostas próprias, como bebidas vegetais com maior concentração proteica e formulações voltadas para diferentes momentos do dia. O desafio agora é transformar inovação em produtos acessíveis, nutricionalmente adequados e ambientalmente coerentes, capazes de alcançar um público cada vez maior sem perder de vista os princípios que impulsionaram o mercado vegano.
Fontes utilizadas na matéria:
- Piracanjuba — lançamento da Almond Breeze com 15 g de proteína vegetal
- Embrapa — desenvolvimento de proteínas vegetais a partir de pulses
- Embrapa — estudo sobre acessibilidade de bebidas proteicas no Brasil
- Good Food Institute Brasil — dados do mercado de alimentos plant-based
- Embrapa — banco de dados sobre novos alimentos e produtos plant-based no Brasil
- CNDL — crescimento do consumo de bebidas vegetais no Brasil





