Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), ligado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, desenvolveram uma tecnologia para obter farinha proteica a partir do feijão-carioca. A iniciativa é conduzida pela Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS), por meio da Plataforma IV, coordenada pela pesquisadora Mitie Sônia Sadahira.
A proposta busca ampliar o uso de uma leguminosa tradicional da alimentação brasileira em produtos plant-based. Em vez de se concentrar apenas em fontes proteicas já utilizadas pela indústria, como soja e ervilha, a pesquisa avalia o potencial tecnológico do feijão-carioca, inclusive de grãos que não atendem ao padrão visual exigido pelo comércio.
Como funciona a obtenção da farinha proteica
De acordo com o Instituto de Tecnologia de Alimentos, o processo utiliza o fracionamento a seco. A técnica envolve etapas de moagem e separação de partículas, sem recorrer ao processamento úmido empregado em outras formas de obtenção de ingredientes proteicos.
Segundo a PBIS, o método pode demandar menos água, reagentes químicos e energia para a secagem quando comparado a processos tradicionais. A tecnologia também abre espaço para o aproveitamento de grãos fora do padrão comercial, uma alternativa para ampliar o uso da matéria-prima agrícola e reduzir perdas associadas à seleção visual.
Essas características são apresentadas pelas fontes como potenciais vantagens do processo. A pesquisa, no entanto, não equivale a uma comprovação de impacto ambiental em escala industrial. Para isso, seriam necessárias avaliações específicas sobre produção, consumo de recursos, logística e aplicação comercial do ingrediente.
Ingrediente pode ser combinado com soja e ervilha
A farinha proteica de feijão-carioca foi analisada em combinação com proteínas de soja e ervilha. O objetivo é verificar como diferentes ingredientes se comportam em formulações destinadas a alimentos à base de plantas, considerando propriedades que influenciam diretamente a fabricação e a experiência de consumo.
Entre os aspectos avaliados estão a retenção de água, a solubilidade, a viscosidade e a capacidade de formar emulsões. Essas características são importantes em produtos como bebidas vegetais, molhos, maioneses e outras formulações que precisam manter estabilidade e textura durante o processamento e o armazenamento.
Um estudo publicado em janeiro de 2025 no International Journal of Food Science and Technology, da Oxford Academic, avaliou misturas de proteínas de soja, ervilha e feijão-carioca. Os resultados indicaram potencial para melhorar propriedades tecnofuncionais, especialmente em preparações que dependem de emulsificação, retenção de água e estabilidade.
Desafio vai além de substituir ingredientes de origem animal
O desenvolvimento de alimentos plant-based envolve mais do que encontrar uma fonte vegetal de proteína. Para chegar a um produto adequado ao consumo, a indústria precisa lidar com textura, sabor, aparência, estabilidade e comportamento dos ingredientes durante o preparo. Por isso, a funcionalidade tecnológica das proteínas é uma etapa central no desenvolvimento de novas formulações.
Nesse contexto, o feijão-carioca oferece uma possibilidade ligada à realidade agrícola e alimentar brasileira. A leguminosa é amplamente reconhecida pelos consumidores do país, e seu uso como ingrediente proteico pode aproximar a inovação tecnológica de uma matéria-prima já presente na rotina alimentar nacional.
A proposta também diversifica as alternativas disponíveis para o mercado de alimentos vegetais. A combinação com proteínas de soja e ervilha não significa a substituição imediata dessas fontes, mas indica uma estratégia para explorar misturas com diferentes características funcionais e ampliar as possibilidades de formulação.
Pesquisa ainda está ligada ao desenvolvimento de ingredientes
Em atualização publicada pelo Ital, a pesquisa aparece associada ao desenvolvimento de soluções e pacotes tecnológicos voltados à indústria de alimentos. A aplicação prática dependerá da continuidade dos testes, da adequação das formulações, da avaliação de custos e da capacidade de processamento em maior escala.
Por enquanto, a farinha proteica de feijão-carioca representa uma frente de pesquisa em ingredientes para alimentos plant-based. O trabalho combina o aproveitamento de uma matéria-prima nacional com uma técnica de processamento a seco e investiga como proteínas vegetais podem ser associadas para atender às exigências tecnológicas de diferentes produtos.





