
Segundo Lucas Peralles, especialista em comportamento alimentar, comer olhando para o celular, o computador ou a televisão se tornou um hábito quase automático para boa parte das pessoas. A prática é tão comum que muitas nem percebem que fazem isso todos os dias. O problema não está na tela em si, mas no que essa distração faz com a capacidade do cérebro de perceber quando o corpo já comeu o suficiente.
Entender esse mecanismo ajuda a explicar por que algumas refeições parecem nunca satisfazer completamente, mesmo quando a quantidade de comida foi adequada para aquele momento do dia.
O que acontece no cérebro quando a atenção está na tela?
A sensação de saciedade não depende só do volume de comida no estômago, depende também de quanto o cérebro registra sobre aquela refeição enquanto ela acontece. Quando a atenção está dividida entre o prato e a tela, esse registro fica incompleto, porque a capacidade de atenção do cérebro é limitada e a tela consome parte dela, o que faz desse hábito um dos padrões de comportamento alimentar mais comuns e menos percebidos da rotina moderna.
Pesquisas sobre esse tema mostram que pessoas distraídas durante uma refeição tendem a comer mais depois, mesmo horas mais tarde, porque a lembrança da refeição anterior fica mais fraca. Essa falha de registro, e não a quantidade de comida em si, é o que compromete a percepção de saciedade.
Por que comer distraído aumenta o consumo sem perceber?
Revisões científicas que analisaram dezenas de estudos sobre o tema concluíram que distrações passivas, como celular e televisão, elevam de forma significativa o consumo de alimentos, tanto na refeição em que a distração acontece quanto na seguinte. Em alguns levantamentos, esse aumento de ingestão calórica chegou a quinze por cento em comparação com refeições feitas sem tela.

Lucas Peralles
Lucas Peralles aponta que esse padrão costuma se repetir mais em alimentos que exigem pouca mastigação e entregam recompensa rápida, como salgadinhos, doces e ultraprocessados em geral, justamente o tipo de comida mais fácil de consumir no automático enquanto a atenção está em outro lugar.
A “memória alimentar” fraca afeta a próxima refeição?
Sim. Quando a experiência de comer não é bem registrada, o cérebro cria o que pesquisadores chamam de memória alimentar fraca, uma lembrança pouco nítida sobre quantidade, sabor e textura do que foi consumido. Sem essa memória, a fome tende a voltar mais cedo e com mais intensidade do que voltaria depois de uma refeição feita com atenção plena.
Esse ciclo ajuda a explicar por que algumas pessoas relatam comer bem em quantidade, mas sentir fome pouco tempo depois: o problema não está necessariamente na quantidade de comida, está em como essa refeição foi registrada, ou não, pelo cérebro no momento em que aconteceu.
Como reduzir esse efeito sem proibir a tela por completo?
Não é necessário eliminar toda tela durante todas as refeições para sentir diferença, mas reservar ao menos algumas refeições do dia livres desse tipo de distração já costuma ajudar bastante. Prestar atenção às primeiras garfadas, mesmo que o resto da refeição aconteça com alguma distração, também contribui para um registro melhor da experiência.
Para Lucas Peralles, o objetivo não é criar uma regra rígida contra qualquer tela à mesa, mas recuperar, mesmo que parcialmente, a atenção que permite ao cérebro registrar de verdade o que está sendo consumido, sem tornar a alimentação um exercício de controle absoluto.
O que fica dessa relação entre tela e saciedade?
Comer distraído não é falta de disciplina, é uma limitação real da forma como o cérebro processa atenção e memória. Quando essa atenção está dividida, o corpo simplesmente tem menos informação disponível para sinalizar que já comeu o suficiente.
Lucas Peralles, à frente da Clínica Peralles, considera que o objetivo não é criar uma regra rígida contra qualquer tela à mesa, mas recuperar, mesmo que parcialmente, a atenção que permite ao cérebro registrar de verdade o que está sendo consumido.
Para acompanhar mais conteúdos sobre comportamento alimentar e emagrecimento, siga @nutriperalles no Instagram.





