
Discussões sobre acesso à mamografia costumam parar justamente onde o problema, na verdade, continua: no exame em si. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues chama atenção para um dado que raramente aparece nesse debate: um estudo que comparou a oferta de procedimentos de detecção precoce do câncer de mama com a necessidade real da população brasileira encontrou déficit nacional de 45,1% nas mamografias de rastreamento, mas um déficit ainda mais grave nas etapas seguintes, chegando a 90,8% na biópsia por agulha grossa na região Centro-Oeste.
Isso significa que, mesmo quando uma mulher consegue realizar a mamografia e recebe um resultado suspeito, o sistema de saúde muitas vezes não tem capacidade suficiente para dar sequência rápida à investigação, seja pela biópsia, seja pelo exame anatomopatológico que viria depois dela. Entender por que esse gargalo posterior costuma ser ainda mais grave do que o próprio acesso ao exame inicial ajuda a explicar um desafio estrutural da saúde preventiva brasileira que raramente recebe a atenção que merece.
Por que o déficit de biópsia é, muitas vezes, maior do que o déficit da própria mamografia?
O estudo que mapeou essa cadeia completa de procedimentos encontrou variação regional expressiva: enquanto o déficit de mamografias de rastreamento variou de 31,4% no Sul a 70,5% no Norte do país, o déficit de biópsias e exames anatomopatológicos, etapas indispensáveis para confirmar ou descartar um diagnóstico, foi consistentemente maior em quase todas as regiões analisadas. Isso revela um padrão importante: ampliar apenas a oferta de mamografia, sem investir proporcionalmente nas etapas seguintes de investigação, cria um funil que se estreita ainda mais depois do primeiro exame.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, esse tipo de gargalo é particularmente frustrante do ponto de vista clínico, já que uma mulher pode enfrentar toda a barreira inicial de conseguir sua mamografia, receber um resultado que exige investigação adicional e, então, esperar semanas ou meses por uma biópsia ou por um resultado de patologia, período em que a ansiedade se soma ao risco real de um câncer eventualmente confirmado continuar progredindo sem tratamento.
Como a distribuição geográfica dos radiologistas contribui para esse problema?
Levantamentos profissionais mostram que 57,8% dos radiologistas brasileiros estão concentrados nas capitais, contra apenas 36,8% distribuídos pelo interior do país, uma disparidade que se agrava ainda mais quando o recorte considera especificamente profissionais subespecializados em imagem mamária, concentração de conhecimento técnico ainda mais rara fora dos grandes centros urbanos. Essa concentração geográfica ajuda a explicar por que, mesmo em regiões com equipamento de mamografia disponível, a qualidade e a agilidade da interpretação podem variar tanto conforme a proximidade com centros urbanos maiores.

Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues
Na avaliação do médico radiologista, Dr. Vinicius Rodrigues, essa escassez não é absoluta, mas relativa e geograficamente concentrada, o que abre espaço para soluções específicas voltadas a redistribuir capacidade técnica sem depender exclusivamente da presença física do especialista em cada município. Ele reforça que essa mesma lógica de concentração se repete em praticamente todas as subespecialidades da radiologia, e não é exclusividade do diagnóstico mamário.
A telerradiologia consegue, de fato, resolver esse tipo de desigualdade geográfica?
A telerradiologia permite que um radiologista subespecializado, localizado em um grande centro urbano, interprete remotamente exames realizados em qualquer parte do país, desde que a imagem seja transmitida com qualidade adequada, reduzindo a dependência de que cada município conte fisicamente com um especialista naquela subárea específica. Essa solução já vem sendo adotada por diversos serviços privados e alguns públicos como forma de ampliar acesso a laudos especializados sem esperar que a distribuição geográfica de profissionais mude no curto prazo.
Para o ex-secretário de Saúde, Dr. Vinicius Rodrigues, expandir esse modelo dentro do sistema público de saúde exige investimento em infraestrutura de conectividade e em plataformas seguras de transmissão de imagem, além de definição clara de responsabilidade técnica e remuneração adequada para o radiologista que presta esse serviço à distância. Ele frisa que essa tecnologia deveria ocupar espaço central em qualquer estratégia voltada a reduzir a desigualdade regional de acesso a diagnóstico especializado.
Por que resolver apenas o acesso à mamografia não é suficiente para resolver o problema como um todo?
Tratar rastreamento populacional como um evento único e isolado, a mamografia em si, ignora que a detecção precoce depende de uma cadeia inteira funcionando de forma coordenada: exame de imagem, biópsia quando necessária, exame anatomopatológico e início do tratamento em tempo hábil. Investir pesadamente em ampliar apenas a primeira etapa dessa cadeia, sem fortalecer proporcionalmente as seguintes, produz o que os próprios pesquisadores chamam de gargalo posterior, capaz de anular boa parte do ganho obtido com a ampliação do acesso ao exame inicial.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que qualquer política pública séria de prevenção do câncer de mama precisa necessariamente considerar essa cadeia completa, avaliando não apenas quantas mamografias estão sendo realizadas, mas também quanto tempo leva e com que capacidade técnica, cada etapa seguinte é conduzida até chegar ao início do tratamento.
Em suma, olhar para além da mamografia, para todo o percurso que uma mulher precisa enfrentar depois de um resultado suspeito, revela desafios estruturais que raramente aparecem nas discussões públicas sobre prevenção do câncer de mama no Brasil. Resolver apenas a primeira etapa dessa jornada, por mais importante que seja, deixa intocado justamente o ponto em que o sistema de saúde brasileiro mais falha.





